Los Inmortales

Los Inmortales, 2015, Buenos Aires, vídeo, 3’28”

A percepção temporal é fardo dos mortais. Aqui, temos o registro de dois momentos de um mesmo dia: antes e durante a tempestade. A dimensão medida do tempo explicita a vida como um intervalo finito e irrefutável para todos os corpos que nascem, crescem e morrem. O que podemos aprender com tudo aquilo que existia, existe e existirá? Mar, rochas, trovões, relâmpagos e tempestades continuam para além de nós e acumulam existências de tempos remotos. A ideia de finitude está na certeza de que cada ato executado possa ser o último. O que nos diferenciaria então dos imortais? No conto de Jorge Luís Borges, Los Inmortales, os corpos infinitos ali descritos dificilmente se conectam com o mundo físico. Eram seres capazes de estar em perfeita quietude sem nem mesmo mover-se. Um deles jamais foi visto de pé e sobre seu peito um pássaro fez um ninho. Restava então o prazer do pensamento e raras vezes o corpo dormente apenas se despertava quando houvesse algum estímulo natural extraordinário que os restituía ao mundo físico.

Assim como os Imortais de Borges, nós, os mortais, perdidos em meio aos discursos, narrativas do tempo e do mundo, damo-nos conta da carne que somos quando em contato com fenômenos naturais. Chove aqui, chove na Rússia e talvez, o ato de assustar-se com as luzes de relâmpagos e ruídos estrondosos de trovões, possa ser algo em comum que faça a ponte entre humanos e animais. Uma tempestade seria capaz de “resetar” a existência para nos fazer entender como fragmento constituinte do todo? A existência das tormentas elétricas de verão chegam aos corpos por ondas sonoras que retumbam nos vidros das janelas, fazendo vibrar copos sobre a mesa, reverberar ondas em poças d’água, retumbar nos ouvidos e tremelicar a carne e os ossos para enfim nos restituir  ao mundo físico e nos levar para além do pensar, achar, opinar e assim, talvez, fazer-nos chegar àquele sentimento primeiro, que nos é inerente. Os estímulos naturais nos lembram do mundo tão relâmpago, tão rocha, tão mar, tão corpo… para nos fazer a voltar ser coisa a mais entre uma multiplicidade de existências sem hierarquia entre si.

* As imagens do vídeo Los Inmortales, inédito, foram captadas em 2013 e editadas em 2015.