Na Paragem das Conchas: uma expedição ao útero da linguagem

 

 

Este texto foi escrito a partir da participação no programa de residência do espaço El Parche Artist Residency, em Palomino, Colômbia, entre dezembro de 2015 e janeiro de 2016, uma experiência de viagem transformadora.

 

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Em um lugar mágico que forma uma península entre o rio San Salvador e o mar do Caribe, sob os pés da Serra Nevada, eu morri. Alguns palmos de terra me cobriam e, ao meu redor, pequenos seres tentavam abrir suas covas em minhas pernas e braços. Lembravam-me eles de que eu estava compactada sob um terreno arenoso e, como uma múmia inca, resistia imóvel na escuridão da Mama Grande[1] – a Terra. Dentro do oco piramidal em que eu me transformara, o sangue fazia mais sentido. No pulso eu existia. A cadência começava no coração e ondulava o tapete da pele até chegar às pontas dos dedos. Enquanto eu latejava, a terra respondia-me em uníssono: era o marulho reverberando e fundindo aquelas ondas às minhas. Dentro desse orifício eu fui o mar e as suas profundezas. Nessa cova, apavorada, a vida mineral me mostrava o céu visto de baixo da madrepérola. Dentro dele fui o molusco engolido pela concha, pela areia e pelo mar. No meu interior subia um frio agudo pela espinha, mesmo que fora da cova o fogo sagrado queimasse o Palo Santo[2]. Um instante apenas separava pavor e êxtase. E nessa fissura espacial mínima das pálpebras entreabertas, antes do primeiro raio de sol atingir a minha retina, eu pude ser aquilo que eu não era. Estava em um estágio anterior a mim, como uma semente a se rasgar de susto diante da vida que brota. A terra, como uma grande vagina, me cuspia inteira e a maresia me lambia junto com a baforada do vento. O meu primeiro balbucio não veio pela boca, ele foi pronunciado pelas asas de uma abelha. O zum zum zum pairava sobre mim como um véu áspero tramado com o veneno do ferrão e a doçura do néctar. Com seus olhos grandes a operária me encarava repousada sobre o abdômen recém-nascido. Sentia no umbigo a flechada de um Eros menino que tinha também olhar de mãe. A abelha pousou justo ali, na cruz de areia esculpida naturalmente pela minha respiração. Era na rosa dos ventos que ela desabrochava no beijo doce semeado pela tromba e pregado pelo ferrão.

       Saí de lá com a certeza de que um dia o que eu chamo “vida” será apenas pedra. Talvez vire um seixo como os outros tantos que seguem a rolar nos rios sagrados que nascem da Serra Nevada e desembocam no mar. Estarei logo ali, entre os riachos que vertem sem memória e correm em lugar nenhum, a perder de vista a vida breve que um dia agarrei, como um punhado de terra, com as mãos.

 

 

 

[1]     “Mama grande” é o termo que a tribo indígena Kogui tem para se referir à entidade divina que se manifesta na Terra.

[2]     No Brasil, a árvore é chamada também de jacarandá. Na lenda de São Tomé, apóstolo cristão que teria peregrinado o mundo todo, o pau-santo é o material da cruz carregada durante as viagens para pregação da palavra divina. A mitologia diz ser do apóstolo as cruzes e as pegadas nas pedras encontradas nas trilhas indígenas na América Latina. Segundo o pesquisador Sérgio Buarque de Holanda, o mito da passagem de São Tomé pelas Américas se popularizou no séc. XVI na Europa, chegando a se tornar mais popular do que o Caminho de Santiago de Compostela. Cf. HOLANDA, Sérgio Buarque de. Visão do Paraíso: motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil. São Paulo: Brasiliense; Publifolha, 2000.

 

Ilustração e fotografias: Alejandro Gómez, Palomino.