Edição #11 | abril 2022

A palavra política, ou politiká, tem origem na Grécia Antiga e deriva de politikós, ou político, termo que designava os cidadãos que viviam na pólis, cidade-estado grega. Assim, politikós também era um termo utilizado para referir-se à sociedade, comunidade ou coletividade. Ali, a política era considerada uma condição inerente aos cidadãos na realização de suas vidas públicas. As relações humanas encontravam-se em primeiro plano e o espaço público – físico, real – era o lugar do encontro e do confronto das pluralidades dos cidadãos na busca do bem comum. Cidadãos eram os homens livres, de pai e mãe ateniense e maiores de 18 anos. Não desfrutavam de qualquer participação política, as mulheres, os escravos e os estrangeiros.

Através do termo em francês politique, o conceito firmou-se na Europa Ocidental por volta do século XIV, sendo definido, neste idioma, como a ciência dos Estados. Hoje, nos regimes democráticos, a política é a atividade dos cidadãos que se ocupam dos assuntos públicos com seu voto, com sua militância ou com a expressão pública de sua opinião. Para constrangimento geral, cerca de 3.000 anos depois da concepção grega de política, ainda temos um número significantemente inferior de mulheres, negros e estrangeiros na militância das nações ocidentais.

Para a politóloga alemã, radicada nos Estados Unidos, Hannah Arendt,

A coisa política entendida nesse sentido grego está, portanto, centrada em torno da liberdade, sendo liberdade entendida negativamente como o não-ser-dominado e não dominar, e positivamente como um espaço que só pode ser produzido por muitos, onde cada qual se move entre iguais. Sem esses outros que são meus iguais não existe liberdade alguma (…).

E diz mais:

A ação, única atividade que se exerce diretamente entre os homens sem a mediação das coisas ou da matéria, corresponde à condição humana da pluralidade, ao fato de que os homens, e não o homem, vivem na terra e habitam o mundo. Todos os aspectos da vida humana têm relação com a política; mas esta pluralidade é especificamente a condição – não apenas a conditio sine qua non, mas a conditio per quam – de toda vida política.

Hannah Arendt demonstra através de seus estudos que, já nos primórdios da modernidade, ocorre um esvaziamento do âmbito político – da vida ativa – quando a importância da dimensão humana da ação é reduzida, absorvida pelo trabalho, que ganha centralidade, e também pelo labor – o conjunto das atividades produtivas que se estabeleciam no espaço privado, cuja finalidade era a manutenção das necessidades biológicas e fisiológicas de sobrevivência (comer, dormir, cuidados com a higiene e a manutenção do corpo), trabalhos ainda hoje encabeçados especialmente pelas mulheres.

Quando a política deixa de estar no centro da vida do cidadão, o trabalho é elevado à categoria de definidor da identidade pessoal, ou seja, o indivíduo passa a definir-se a partir do trabalho que desenvolve. Mas no decorrer da modernidade, o trabalho também perde terreno, sendo por fim alocado em um segundo plano, ao passo que a atividade do consumo, vinculada diretamente ao labor, passa a ser condicionante na vida dos seres humanos.

Essa passagem da política para o trabalho – na modernidade – e do trabalho para o consumo – na contemporaneidade – resultou na sobreposição da dimensão privada da vida humana sobre a dimensão política, intrinsecamente coletiva, condição que vivenciamos de forma alarmante nos dias de hoje. É dizer: se não fazemos política, não há coletividade, não reconhecemos a pluralidade, não há liberdade.

A política deve estar no centro de nossa vida porque escolhemos viver em comunidade, porque seguimos escolhendo, geração após geração, a convivência ao invés do isolamento. Seja dentro ou fora de casa, no privado ou no coletivo, tudo o que envolve a construção de uma ponte – por mais singela que seja – entre 2 ou mais indivíduos, é política. Já dizia Aristóteles,

(…) o homem é, naturalmente, um animal político (…).

Hoje, quando a maioria de nós mantém a política nas bordas de nossas vidas, sempre nos escapando, vivemos a maior crise política da imatura democracia de nosso país. Não fazer política é na verdade abster-se de sua obrigação enquanto indivíduo que escolheu viver em comunidade, enquanto cidadão, ou seja, enquanto habitante da cidade.

A mostra #11 do acervo HIPOCAMPO traz uma seleção de 21 trabalhos, escolhidos dentre os 127 que foram publicados nas mostras anteriores [# 1 a #10] por suas contribuições para os debates em torno da política. Em ano de eleição presidencial, quando as esperanças se renovam e compartilhamos uma grande responsabilidade, é fundamental falarmos sobre o espaço da política dentro de nossas vidas, assim como sobre outros temas que, por sua urgência, permeiam o embate político na contemporaneidade.

Participam da #11: Ali do Espirito Santo [Porto Alegre], Alvaro Seixas [Rio de Janeiro], Ana Luisa Lima [Recife/Argentina], biarritzzz [Recife], Bruno Mendonça [São Paulo], Denilson Baniwa [Niterói/RJ], Desali [Belo Horizonte], Geovanni Lima [Vitória], Laboratório Cisco [Campinas/SP], Larissa Ibúmi Moreira [São João Del Rei/MG], Lilian Maus [Porto Alegre/Osório/RS], Lucas Bambozzi [São Paulo], Lucila Vilela [Florianópolis], Maíra Freitas [Campinas/SP], Marco Paulo Rolla [Belo Horizonte], Marina Mayumi [São Paulo], Paloma Klis(y)s [São Paulo], Paula Borghi [São Paulo] e Ricardo Basbaum [Rio de Janeiro].

Fora Bolsonaro.

Maíra Endo

Organizadora do HIPOCAMPO e editora-curadora da mostra #11