Brotação

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BANANEIRA

A bananeira tem um coração que fica suspenso no ar. Cada coração carrega um cacho, cada cacho muitas pencas, cada penca muitas bananas. Quando seu cacho é arrancado do pé, o coração vai junto. Na colheita um facão separa em dois o corpo; de um lado os pés, do outro cabeça coração.

Comem bananas e trançam folhas. Poucos são os que sabem preparar o coração, esse é um alimento de saberes matriarcais. Ferver, cozinhar e temperar. Aquele que o come precisa ser convidado, ter permissão. Depois da colheita é preciso honrá-la.

Dependendo da espécie e das condições, em poucos meses nasce outro coração. O ciclo se completa.

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JIBOIA

Em forma de animal, planta ou disfarçada de humano, a serpente se apresenta conforme a ocasião. Certa vez a chamaram Lilith, outras de coisa ruim. Muitas vezes a chamam em sonhos. O que se sabe é que ela nasce bem pequena e vai crescendo, crescendo até ficar forte e grande o suficiente para abraçar toda uma aldeia.

É comum encontrá-la na forma de planta protetora da casa, na energia da kundalini dos corpos femininos e até mesmo mentalmente em conversa com os Xapiri. A jiboia na menina mulher, a menina mulher na jiboia. São um só corpo; poder matriarcal que abraça, cuida, compartilha saberes e enxerga através do olho da alma.

A jiboia é livre e prefere o exílio a viver em submissão. Quando tentam calá-la é guerra; luz e sombra, vida e morte. Rasteja, trepa numa árvore, nada em um rio, se enrola, abocanha e digere osso por osso aquele que a ameaça. O seu abraço afaga, abafa, afoga.

Juntas, duas meninas mulheres são mais poderosas do que uma só. Quando estão em dupla as serpentes formam a imagem do DNA. Ela é a mãe da vida.

GIF

Brotação (2021), Natali Tubenchlak, gif

*Esta publicação é uma colaboração entre Paula Borghi e Natali Tubenchlak. Os textos Bananeira e Jiboia, de autoria de Paula Borghi, são inéditos e foram produzidos entre 2020 e 2021. A obra Dá-se assim com banana integrou a exposição Dá-se assim desde menina ou Perder a cabeça, realizada em 2019 na Fábrica Bhering. A obra Pendente ao encontro integrou o 16º Salão Ubatuba de Artes Visuais, realizado também em 2019. Os registros fotográficos destas obras, que integram esta publicação, são de Mario Grisolli, e foram gentilmente por Natali. O gif Brotação é inédito, criado em 2021 especialmente para o HIPOCAMPO. Natali Tubenchlak (Niterói-RJ, 1975), estudou na Escola de Artes e Ofícios em Barcelona, trabalhou durante anos na criação de alegorias para o carnaval do Rio de Janeiro e pratica gravura dentro da oficina do Museu do Ingá desde 1993. Foi co-idealizadora do espaço independente Barracão Maravilha (2008-2015). Participou de diversas residências artísticas como J.A.C.A. (Belo Horizonte, 2014), Residência Artística Mutuca 6 (Serra do Espinhaço-MG, 2017), Barda del Desierto#3 (Patagônia-AR, 2017) e Casa Tres Patios (Medellín-CO, 2018). Fez sua primeira exposição individual em 2001 no Espaço Cultural CREA-RJ. Em 2019 foi artista premiada no 16º Salão Ubatuba de Artes Visuais. Desde 2010 participa do coletivo Ambientes Infláveis produzindo esculturas penetráveis em diversos espaços de arte da América Latina, como a Galeria Vendaval (Patagônia-AR, 2012) e a Casa Daros (RJ, 2013). Sua prática é centrada no oficio manual e no tempo da natureza como forma de resistência. Investiga o diálogo sobre ética, violência e sensualidade.

Paula Borghi (São Paulo, 1986) mestranda em Artes Visuais na linha de pesquisa de História e Crítica de Arte pelo PPGAV/UFRJ. Foi curadora adjunta da 11# Bienal do Mercosul (Porto Alegre, 2018), curadora convidada do Centro Cultural Hellerau no Projeto Brasil (Dresden, Alemanha, 2016), assistente curatorial de Ibis Habascal na 12# Bienal de La Havana (Cuba, 2015) e curadora da Residência Artística do Red Bull Station (São Paulo, 20013-2015). Foi co-idealizadora do espaço independente Saracura (Rio de Janeiro, 2016-2018) e idealizadora da biblioteca itinerante de publicações de artistas latinos Projecto MULTIPLO (2011-2017), premiado pelo Rumos Itaú Cultural em 2015-2016. Nos anos de 2015 e 2016 trabalhou com o Instituto Goethe no projeto Jogos do Sul, que teve como objeto de pesquisa os I Jogos Mundiais Indígenas, Palmas. Ao longo de sua trajetória vem atuando com processos curatorias voltados a residências artísticas e exercícios de práticas democráticas.